Visita Ilustre

O Espaço do Conhecimento UFMG recebeu na última semana a visita da artista Arissana Braz. Natural e residente do estado da Bahia, a pataxó tem um dos seus quadros expostos na ¡MIRA! – Artes Visuais Contemporâneas dos Povos Indígenas, e nesta visita ao museu pôde conferir o resultado da exposição pela primeira vez. Em uma conversa rápida com o núcleo de Comunicação do Espaço do Conhecimento, Arissana falou sobre seu trabalho e sua experiência no museu.

– Como foi visitar pela primeira vez a ¡MIRA!?

Foi muito bom! Acredito que um trabalho como este é inédito, não vi uma exposição que juntasse tantos artistas indígenas – e de vários países. A ¡MIRA! é mesmo bem inovadora nesse sentido: traz uma diversidade muito grande e mostra que os povos indígenas, além de usarem técnicas artísticas milenares, técnicas dos ancestrais, usam também a tecnologia. Não posso falar pelos outros, mas acredito que, como eu, muitos dos artistas também tenham o propósito de refletir sobre o mundo contemporâneo em que os povos indígenas estão inseridos. Em trazer à tona a memória do seu povo, a história, os mitos, os sonhos, a filosofia e a estética. Nisso, cada obra é bem própria…

Arissana Braz posa ao lado de sua obra na exposição ¡MIRA! – Artes Visuais Contemporâneas dos Povos Indígenas

– Quais são os locais em que a arte contemporânea indígena tem ganhado mais espaço?

Isso vai depender muito do esforço do indígena. Poucas pessoas têm a mesma atitude de Inês [Maria Inês de Almeida, curadora da exposição]. Aí vai muito do artista, do esforço de cada um para se inserir, participar de editais para publicação ou seleção de obras em exposições, em salões, bienais. A maioria das exposições que eu fiz foi me inscrevendo, montando a exposição sozinha. Claro, sempre contei com a ajuda de algumas pessoas, mas sempre partiu de mim a vontade de montar a exposição, de correr atrás do espaço. Se você não procura ninguém vai ceder, ninguém vai saber que você quer expor. Não é um trabalho fácil, em que você possa ficar em casa esperando as pessoas te convidarem. Se quiser mostrar tem que ficar de olho para achar parceiros para contribuir, para conseguir recursos.

– Você pode nos falar um pouco da história do seu quadro que está na exposição?

Na verdade, não tem muita história (risos)… É uma prima minha. Quando eu desenho a figura humana o meu objetivo é justamente trazer o retrato do povo pataxó, trazer à tona esse povo que às vezes não é visto. Seja os gestos, o jeito de sorrir, a fisionomia… Quando eu exponho essas figuras humanas meu objetivo é mostrar a cara desse povo, cara no sentido de rosto, mesmo. Mostrar que é um povo diferente mas, que de certa forma, é igual às outras pessoas. Que é um povo que vive, não está no passado, não está morto. Eu poderia muito bem pintar obras que não estão relacionadas aos povos indígenas, mas quando faço essa opção eu busco que as pessoas conheçam o povo pataxó, conheçam a realidade indígena e se interessem, queiram saber mais. Nesse sentido minha obra tem o objetivo de funcionar como uma porta. E quando você expõe o seu povo você faz com que as pessoas tenham interesse em aprofundar seus conhecimentos sobre ele. Se aprofundando, elas passam a conhecer. Conhecendo, aos poucos esse estereótipo que muita gente traz sobre os indígenas é quebrado.

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* Arissana Braz é artista plástica e mestranda do Programa de Pós-graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Universidade Federal da Bahia. Integra o Núcleo Yby Yara – Observatório da Educação Escolar Indígena da Bahia e o Núcleo de Antropologia Visual da Bahia – NAVBA. Durante três anos foi professora da Escola Indígena Pataxó da Aldeia Coroa Vermelha, localizada no extremo Sul da Bahia, lugar em que morava antes de ingressar na universidade. Desenvolve uma produção artística em diversas técnicas, abordando a temática indígena como parte do mundo contemporâneo. Além dos Pataxó, continua trabalhando com outros povos indígenas da Bahia, com diversas atividades de arte-educação e produção de material didático. Tem participado de diversas exposições coletivas e individuais.

 

O fenômeno da SuperLua

A Lua é um dos astros celestes que exercem mais fascínio nos seres humanos: seja por admiração, no coração dos apaixonados, ou por temor da coloração rubra que cobre sua superfície durante os eclipses lunares, anunciando um provável fim do mundo, segundo algumas culturas mais antigas. Talvez por ser o astro mais próximo de nós – o que possibilita a visualização de detalhes em sua superfície –, nosso satélite apresenta diversos fenômenos interessantes que podem ser contemplados. Um deles, e o mais observável a olho nu, é o chamado “superlua”.

 Uma superlua ocorre no período da Lua cheia, quando o satélite está mais próximo da Terra, ou seja, no perigeu de sua órbita. De modo geral, essa máxima aproximação ocorre a cada 13 meses e 18 dias, fazendo da superlua um fenômeno relativamente corriqueiro. O ano de 2014 conta com três superluas, em 12 de julho, 10 de agosto e 9 de setembro. Porém, a ocorrência do fenômeno no mês de agosto foi a mais interessante, uma vez que a Lua orbitou o ponto mais próximo do nosso planeta.

A órbita da Lua em torno da Terra não é descrita como um círculo perfeito, mas sim como uma elipse cerca de 6% achatada, e nosso planeta ocupa uma posição que é um dos focos da elipse – o que faz com que a Lua experimente, ao longo do período, variações de distância em relação a Terra. No apogeu médio a distância é de 405.700 km; já no perigeu médio essa distância é reduzida para 357.100 km. No dia 10 de agosto essa distância foi de 356.900 km, ou seja, uma das maiores aproximações entre a Terra e a Lua em muito tempo.

No decorrer de uma translação da Terra em torno do Sol ocorrem cerca de 13 Luas cheias, isto é, o alinhamento Sol-Terra-Lua repete-se em um intervalo de 27,3 dias. No entanto, uma Lua cheia bem próxima do perigeu ocorre somente naquele intervalo citado anteriormente, de 13 meses e 18 dias. Em outras épocas do ano a Lua passa pelo perigeu em outras fases de iluminação, como pode ser exemplificado pela figura abaixo:

Os efeitos perceptíveis da superlua do dia 10 de agosto foram o aumento de seu tamanho aparente no céu – cerca de 15% maior do que em outras ocorrências de Lua cheia – e o aumento de sua luminosidade – aproximadamente 30%, se comparado a fases de Lua cheia de alguns meses atrás. Em alguns pontos do litoral brasileiro, os efeitos da maré, por volta da meia-noite, acarretarão um ligeiro aumento do nível das águas em direção à praia. 

Comparação do tamanho aparente do disco lunar no intervalo de 8 meses.

A superlua nasceu para Belo Horizonte às 17h47 (hora oficial de Brasília) e teve seu ocaso às 5h52, já na madrugada de 11 de agosto. Quem visualizou a Lua quando ela esteve próxima do horizonte, notou uma coloração avermelhada. Este efeito relaciona-se à porção maior de atmosfera que a luz deverá atravessar, fazendo com que a luz do luar se espalhe. Já o aparente aumento no tamanho da Lua, causado pela proximidade do disco lunar no horizonte, deve-se mais a uma ilusão de ótica causada pelos objetos de referência na linha de visada, tais como prédios.

Dizeres míticos, dizeres científicos, dizeres no Espaço

 “Não é por certo em virtude de um plano determinado ou por obra de um espírito sagaz que os átomos se colocaram na ordem que é sua (…)” [Lucrécio, De rerum natura]

Em princípios do século XIX, o cientista inglês John Dalton formulou a teoria atômica, concluindo por meio de experimentos que a matéria é composta por partículas microscópicas elementares denominadas átomos. Com importantes estudos em cima das afirmações de Dalton, outros modelos atômicos foram desenvolvidos até que se chegou ao mais recente,  no qual se baseiam os estudos da química e da física atuais.

Para Dalton os átomos eram maciços e indivisíveis, como bolas de gude

Curiosamente, muito tempo antes de a teoria dos átomos ter sido formulada por esse cientista, filósofos da Grécia Antiga já cantavam essa pedra. Conforme os conhecimentos da época, os gregos já especulavam, à sua maneira, que a matéria era constituída por conjuntos de partículas. Os atomistas, como eram chamados, acreditavam que o átomo era a menor parte da matéria e, portanto, indivisível. Mesmo que a ideia a respeito do átomo tenha sofrido transformações com as descobertas de cientistas posteriores a Dalton, o conceito de matéria constituindo todas as coisas do mundo é mais antigo que os próprios experimentos baseados no método científico.

Em uma composição poética do século I a.C., dividida em seis livros, o escritor latino Tito Lucrécio Caro aprofunda ideias atomistas, reafirmando o caráter material da natureza e negando a existência de um ser espiritual como o criador do mundo. Entre as proposições da obra De rerum natura (Sobre a natureza das coisas – em tradução), o autor ressalta que o acaso foi o responsável pela origem do universo.

Versão “De rerum natura”

Devido a aproximações com o discurso da ciência, ele foi escolhido para inspirar e compor a nova instalação do Espaço do Conhecimento. Agora, quem passar pela seção Cosmogonias no terceiro andar vai se deparar também com a Cosmologia. Enquanto as demais esculturas da seção narram o nascimento do ser humano nas  diversas tradições culturais sobre a origem do mundo, a novidade trata do assunto a partir da perspectiva científica.

Colocando os mitos e a ciência sob o mesmo patamar, a exposição sugere que as teorias científicas também são frutos de construções sociais. Ao elaborar uma nova proposta, o cientista leva em consideração o que já foi desenvolvido sobre o tema e a partir disso faz suas próprias contribuições. Os rumos da ciência sofrem diversas influências – culturais, políticas, econômicas… – e refletem o momento histórico que a sociedade vivencia.

Cosmogonias e cosmologia dividindo o mesmo espaço revela não só o reconhecimento  dos mitos como importantes agentes na história da humanidade, mas coloca a ciência como um discurso passível de constantes transformações, isto é, longe de ser uma verdade absoluta.

Venha conhecer a instalação do Espaço do Conhecimento e descubra como ciência e narrativas orais dialogam no museu.  Você pode  também conhecer um pouco do processo de construção do painel no vídeo produzido por nosso núcleo audiovisual.

OBSERVANDO OS CÉUS POR AMOR E DEDICAÇÃO

Você já ouviu falar em um cirurgião amador? E um engenheiro civil amador? Certamente lhe causou estranheza ler o termo “amador” associado a profissões que exijam tamanha carga de formação, competência e experiência. Mas, existe uma área do conhecimento em que não há uma conotação pejorativa em ser um amador, e na qual um grande número de amadores são grandes colaboradores no trabalho dos profissionais de carreira. A área do conhecimento em questão é a a astronomia.

Um caminho interessante para se tornar um astrônomo amador é ler bastante sobre o assunto, passar muitas e boas noites contemplando os céus a olho nu, geralmente com cartas celestes ou softwares de simulação do céu, procurando identificar estrelas e suas constelações. Por ser um instrumento muito versátil, um binóculo de boa qualidade óptica, de configuração 7X50, seria um bom instrumento para ser usado pelos iniciantes. Entrar em contato com grupos de astrônomos amadores de sua cidade ou região também é uma ótima dica. Geralmente eles promovem noites de observação coletiva, chamadas de star party, onde o interessado pode ficar mais por dentro dos tipos de telescópios existente e até adquirir um.

Nesse estágio da contemplação, após observar o céu por alguns anos com seu telescópio, o interessado pode optar por atuar em uma área da astronomia pela qual ele sinta maior afinidade. Nasce aí o astrônomo amador, pronto para pesquisa e para produzir dados de observação que possam ser de utilidade para outros pesquisadores. Logo, astrônomo amador é aquele que se dedica seriamente ao estudo observacional do céu, sem receber remuneração para isso, ele geralmente exerce outra profissão na vida, de onde tira seu sustento.

O inglês sir Patrick Moore foi o criador do programa de TV “The Sky at Night”, sucesso na história da divulgação da astronomia

Alguns astrônomos amadores se tornaram ícones da área pelas contribuições realizadas em suas áreas de interesse. O inglês sir Patrick Moore (1923-2012), que na Segunda Grande Guerra foi navegador da Royal Air Force, tomou gosto pela astronomia e, em 1957, estreou na TV BBC um programa chamado The Sky at Night. No ar por 55 anos, o programa foi um enorme sucesso na história da divulgação da astronomia e rendeu inúmeros livros. O sul-africano Jack Bennett (1914-1990) descobriu dezenas de cometas brilhantes, que levaram seu nome, além de algumas supernovas. O neozelandês Albert Jones (1920-2013), um educador secundarista, realizou mais de cem mil observações de estrelas variáveis, descobriu três cometas e codescobriu uma Supernova, em 1987. O sino-estadunidense John Dobson (1915-2014), era químico, mas sua enorme contribuição na elaboração de um sistema de montagem mecânica para telescópios amadores, chamado montagem dobsoniana, fez com que os custos de construção de um telescópio amador caíssem vertiginosamente. Com isso, Dobson ganhou uma legião de fãs e popularizou a astronomia, levando os telescópios às ruas de cidades do mundo inteiro.

No Brasil, temos nomes importantes como Jean Nicolini (1922-1991), que por mais de 50 anos dedicou-se a observação do céu nas mais diferentes áreas, incluindo o Sol. Trabalhou com afinco na divulgação da astronomia, ao inaugurar vários observatórios municipais no interior de São Paulo. Atualmente, nosso maior expoente está no engenheiro civil mineiro Cristovão Jacques Lage de Faria (1962 -), que junto à sua equipe já descobriu dezessete asteroides, quinze Supernovas, três estrelas variáveis e, atualmente, se dedica a busca de Objetos Próximos a Terra (NEOs), por via de um observatório situado em Oliveira – MG. Nesse observatório, batizado de SONEAR, o grupo realizou duas descobertas históricas de cometas.

O brasileiro Cristóvão Jacques descobriu, junto à sua equipe, o primeiro “cometa brasileiro”.

Cristóvão Jacques, aliás, estará presente no Café Controverso, do dia 19 de abril de 2014, esclarecendo dúvidas e contando um pouco das histórias de suas descobertas. Participe e entenda um pouco o amor de quem se dedica a contemplar e desvendar os mistérios do céu.

* Marcelo Cruz Costa de Souza é planetarista do Espaço do Conhecimento UFMG, astrônomo amador e graduando em Engenharia Metalúrgica PUC Minas