OBSERVANDO OS CÉUS POR AMOR E DEDICAÇÃO

Você já ouviu falar em um cirurgião amador? E um engenheiro civil amador? Certamente lhe causou estranheza ler o termo “amador” associado a profissões que exijam tamanha carga de formação, competência e experiência. Mas, existe uma área do conhecimento em que não há uma conotação pejorativa em ser um amador, e na qual um grande número de amadores são grandes colaboradores no trabalho dos profissionais de carreira. A área do conhecimento em questão é a a astronomia.

Um caminho interessante para se tornar um astrônomo amador é ler bastante sobre o assunto, passar muitas e boas noites contemplando os céus a olho nu, geralmente com cartas celestes ou softwares de simulação do céu, procurando identificar estrelas e suas constelações. Por ser um instrumento muito versátil, um binóculo de boa qualidade óptica, de configuração 7X50, seria um bom instrumento para ser usado pelos iniciantes. Entrar em contato com grupos de astrônomos amadores de sua cidade ou região também é uma ótima dica. Geralmente eles promovem noites de observação coletiva, chamadas de star party, onde o interessado pode ficar mais por dentro dos tipos de telescópios existente e até adquirir um.

Nesse estágio da contemplação, após observar o céu por alguns anos com seu telescópio, o interessado pode optar por atuar em uma área da astronomia pela qual ele sinta maior afinidade. Nasce aí o astrônomo amador, pronto para pesquisa e para produzir dados de observação que possam ser de utilidade para outros pesquisadores. Logo, astrônomo amador é aquele que se dedica seriamente ao estudo observacional do céu, sem receber remuneração para isso, ele geralmente exerce outra profissão na vida, de onde tira seu sustento.

O inglês sir Patrick Moore foi o criador do programa de TV “The Sky at Night”, sucesso na história da divulgação da astronomia

Alguns astrônomos amadores se tornaram ícones da área pelas contribuições realizadas em suas áreas de interesse. O inglês sir Patrick Moore (1923-2012), que na Segunda Grande Guerra foi navegador da Royal Air Force, tomou gosto pela astronomia e, em 1957, estreou na TV BBC um programa chamado The Sky at Night. No ar por 55 anos, o programa foi um enorme sucesso na história da divulgação da astronomia e rendeu inúmeros livros. O sul-africano Jack Bennett (1914-1990) descobriu dezenas de cometas brilhantes, que levaram seu nome, além de algumas supernovas. O neozelandês Albert Jones (1920-2013), um educador secundarista, realizou mais de cem mil observações de estrelas variáveis, descobriu três cometas e codescobriu uma Supernova, em 1987. O sino-estadunidense John Dobson (1915-2014), era químico, mas sua enorme contribuição na elaboração de um sistema de montagem mecânica para telescópios amadores, chamado montagem dobsoniana, fez com que os custos de construção de um telescópio amador caíssem vertiginosamente. Com isso, Dobson ganhou uma legião de fãs e popularizou a astronomia, levando os telescópios às ruas de cidades do mundo inteiro.

No Brasil, temos nomes importantes como Jean Nicolini (1922-1991), que por mais de 50 anos dedicou-se a observação do céu nas mais diferentes áreas, incluindo o Sol. Trabalhou com afinco na divulgação da astronomia, ao inaugurar vários observatórios municipais no interior de São Paulo. Atualmente, nosso maior expoente está no engenheiro civil mineiro Cristovão Jacques Lage de Faria (1962 -), que junto à sua equipe já descobriu dezessete asteroides, quinze Supernovas, três estrelas variáveis e, atualmente, se dedica a busca de Objetos Próximos a Terra (NEOs), por via de um observatório situado em Oliveira – MG. Nesse observatório, batizado de SONEAR, o grupo realizou duas descobertas históricas de cometas.

O brasileiro Cristóvão Jacques descobriu, junto à sua equipe, o primeiro “cometa brasileiro”.

Cristóvão Jacques, aliás, estará presente no Café Controverso, do dia 19 de abril de 2014, esclarecendo dúvidas e contando um pouco das histórias de suas descobertas. Participe e entenda um pouco o amor de quem se dedica a contemplar e desvendar os mistérios do céu.

* Marcelo Cruz Costa de Souza é planetarista do Espaço do Conhecimento UFMG, astrônomo amador e graduando em Engenharia Metalúrgica PUC Minas

Ao infinito e além

Retrospectiva das ações do núcleo de astronomia do Espaço do Conhecimento em 2013

As atividades do núcleo da astronomia sempre cativaram os visitantes do Espaço do Conhecimento e o ano de 2013 foi especialmente recheado de atividades para os amantes do céu. Foram muitos os destaques da programação: em maio de 2013 o museu ganhou um novo telescópio, com porte e abertura maiores que o anterior. O instrumento permite melhor visualização dos corpos celestes e proporciona imagens de ótima ampliação e nitidez. A novidade traz ainda uma montagem equatorial, com um GPS integrado, que possibilita a produção de astrofotografias e o acompanhamento dos astros com o mínimo de trepidação possível.  Em 2013 a temporada de observação dos corpos celestes começou com a visualização do planeta Saturno e, no decorrer do ano, quem frequentou o terraço astronômico pôde também observar aglomerados de estrelas, uma nebulosa, o planeta Vênus, e a Lua.

Novo telescópio chegou ao Espaço do Conhecimento em maio de 2013

Por regra, durante as sessões a equipe de astronomia do Espaço do Conhecimento UFMG aponta técnicas para que as pessoas possam reconhecer estrelas e planetas, segundo a astronomia clássica grega e de outros povos. Foi a partir dessa perspectiva que a equipe de audiovisual do Espaço se uniu ao setor de astronomia para criar os cards de astronomia indígena. Em 2012 o Espaço do Conhecimento produziu 3 cards apresentando as Constelações do Cruzeiro do Sul, Órion e Escorpião. Em 2013, surgiram os cards da Ema e do Homem-Velho, constelações tupi-guarani que têm influências diretas sobre os costumes das etnias.

Leonardo Soares, responsável pelo Núcleo de Astronomia do Espaço, explica que as peças são muito valiosas para observação a olho nu: “quando as pessoas estão no terraço astronômico os cards se tornam excelentes mapas para a identificação das estrelas. Os visitantes adoram,” acrescenta. A abordagem desse novo olhar para o céu foi tão positiva que a expectativa é de que , em 2014, duas novas constelações tupi-guarani sejam trabalhadas e que a sessão “O Céu de Belo Horizonte”, apresentada no planetário do Espaço, ganhe uma edição exclusiva para astronomia indígena.  Leonardo Soares destaca a importância das produções internas de conteúdos para o planetário: “estamos em uma produção conjunta com o núcleo audiovisual e nos preparando para ampliar o número de sessões comentadas do céu, incluindo os temas Astronomia tupi-guarani e a Lua e o zodíaco”, adianta.

Parte frontal dos cards de astronomia indígena

Outro viés importante das atividades do núcleo em 2013 foram os cursos oferecidos gratuitamente para públicos diversos. O curso “O Céu a olho nu”, convidou professores das redes pública e privada de ensino a ampliar seus conhecimentos acerca do movimento dos astros, bem como sua aplicação prática na vida cotidiana. O Espaço do Conhecimento ofereceu também sessões comentadas especiais no planetário para estudantes do curso de formação intercultural de educadores indígenas – FIEI (FAE – UFMG) e de jovens do Programa de reintegração social de menores infratores (UFMG/TJMG).  Em dezembro, com o encerramento da observação celeste no terraço, surgiu o ciclo de encontros “Universo Curioso – Palestras sobre Astronomia”. Os temas dos 5 encontros do ciclo foram definidos a partir de perguntas feitas durantes as sessões do planetário e terraço astronômico do Espaço do Conhecimento UFMG. “Os palestrantes foram escolhidos com base em suas respectivas áreas de especialização e a partir dos temas suscitados nas conversas com os visitantes,” explica Leonardo Soares. As palestras foram gratuitas e abertas ao público.

Ciclo de palestras trabalhou temas variados com o público

Para o trabalho com as escolas, o Espaço do Conhecimento UFMG também possui um kit de ensino de astronomia que diversifica as possibilidades de abordagem dos temas, levando crianças e jovens a perceber o quanto a compreensão dos fenômenos celestes está próxima da vida cotidiana.  Atualmente, o maior trabalho relacionado ao kit é um relógio de Sol impresso em lona no qual a pessoa (posicionada adequadamente) consegue projetar uma sombra que marca as horas.

O uso do kit de astronomia em oficina ministrada no quinto andar do museu

 

No dia 12 de outubro vários países, incluindo o Brasil, participaram da Noite Internacional de Observação da Lua – InOMN ou International Observe the Moon Night. O evento, proposto pela Astronomical Society of the Pacific & NASA Night Sky Network, é realizado anualmente com o objetivo de estimular a observação do satélite natural, bem como provocar reflexões e a troca de informações acerca do vizinho mais próximo da Terra. O Espaço do Conhecimento UFMG contou com uma programação especial dedicada ao dia, que levou à lotação total de todas as atividades do evento.

Sobre as diversas utilidades de uma xícara

No começo do ano de 2013, a equipe do Espaço pensou em uma nova identidade visual para os Cafés com Conhecimento e Cafés Controversos. Inicialmente, discutimos várias ideias e a primeira a ser executada foi um ensaio fotográfico com diferentes modelos de xícaras de café. Entretanto, acabou não dando muito certo, pois estávamos a procura de algo mais gráfico.

Depois disso, refletimos e chegamos à conclusão de que o nosso propósito era mostrar o conhecimento representado em formas e meios diferentes. Visando esta ideia, imaginamos a xícara de café, símbolo do nosso evento, sendo utilizada em várias situações, em diversos contextos.

Perguntamos: quais objetos poderiam ser substituídos por uma xícara de café? Um barco, um vaso de flor, uma banheira, um guarda-chuva, um chuveiro… Viajamos no conceito e tudo o que víamos se tornava uma possível xícara. Escolhidos os objetos, desenvolvemos as ilustrações que foram para os cartazes e para as animações da Fachada Digital.

Foi um desafio bem divertido fazer as ilustrações e depois imaginar quais movimentos poderiam ser interessantes para a animação de cada uma. E, como este é o último mês de Cafés, gostaríamos de compartilhar com vocês essas ilustrações e animações que foram exibidas na Fachada ao longo do ano.

 

Abaixo estão algumas ilustrações que acabaram não entrando em nenhum mês dos Cafés e, por isto, não tiveram animações para a Fachada Digital.

As animações:

Será que vocês conseguem pensar em mais objetos que poderiam ser uma xícara de café?

Quantas linhas são necessárias para preencher uma semiesfera preta?

No segundo semestre de 2012, ao receber o Edital de Estímulo à Produção Audiovisual do Espaço do Conhecimento UFMG, me perguntei se o trabalho Quantas linhas são necessárias para apagar um retângulo preto? não poderia ser adaptado para o formato fulldome. Há poucos meses, havia gerado uma versão em vídeo para uma exposição em Porto Alegre, e ficara com a sensação de que o trabalho ainda poderia ser melhor explorado. Ele possui alguns momentos onde o emaranhado de linhas sugere paisagens, mas paisagens lunares ou extraterrestres, não terrestres. Esta percepção me fez pensar que uma associação mais forte com astronomia ajudaria o público a ver este aspecto do trabalho, e me incentivou a participar do edital.

Andrei Thomaz se inspirou em um trabalho anterior para criar a obra em fulldome

Depois de resolver a geração das imagens no formato fulldome, convidei o compositor Vitor Kisil, com quem já trabalhei em diversas ocasiões para compor a trilha do trabalho. Realizamos alguns ajustes no tempo do trabalho, até chegarmos até a versão final que será apresentada a partir do dia 12 de setembro no Espaço do Conhecimento. Para estes ajustes, desenvolvi alguns aplicativos em Adobe Air, capazes de processar os frames que compõem o trabalho. É importante que o público possa ver a animação nas suas diferentes etapas, sem que nenhuma passe rápido demais, mas, ao mesmo tempo, nos pareceu importante que a duração do trabalho não ultrapassasse os 10 minutos.

Frame do trabalho adaptado para a estrutura do domo

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A Oficina Uso do Processing na produção Fulldome, ministrada  por Andrei Thomaz , foi promovida pelo Espaço do Conhecimento UFMG em parceria com a Escola de Arquitetura da UFMG. Realizada no Laboratório Radamés e viabilizada pelo Colegiado do Curso de Arquitetura e Urbanismo,as atividades aconteceram em julho de 2013, as inscrições foram gratuitas e abertas ao público. Os participantes utilizaram exercícios de desenho envolvendo corpos e mapas celestes para introduzir o uso da linguagem de programação para criação de projetos de animação.